‘Existe no Brasil uma miscigenação que acontece muito fácil’

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Pianista e maestro Marcelo Bratke faz estreia como regente neste domingo (21) no Theatro Municipal, em São Paulo

Pianista e maestro, Marcelo Bratke, 58, é dono de projetos socioculturais em São Paulo, como Villa-Lobos e Camerata Brasil, que têm mais de dez anos e levam jovens da periferia à profissionalização como músicos de orquestras. Ele recebeu, em janeiro, o prêmio de Cidadão São Paulo 2019.

Já coleciona mais de 400 concertos dentro e fora do Brasil, além de uma crítica publicada no The New York Times, feita por Allan Kozinn, que classificou a apresentação como “uma beleza selvagem, ao mesmo tempo construída com elegância, com sutileza nos deslocamentos rítmicos e um colorido pianístico brilhante”, em 2010.

Mesmo com uma grande carreira, começou a estudar piano aos 14 anos, mas sua jornada foi difícil até os 44, quando passou por uma operação no olho esquerdo com o objetivo de recuperar a visão, uma vez que desenvolveu uma atrofia no nervo ótico e possuía 3% de visão no olho direito e 7% no esquerdo. Neste domingo (21), às 12h, ele se apresenta pela primeira vez como regente sem o piano em um espetáculo no Theatro Municipal, em São Paulo, com a Orquestra Bachiana Filarmônica do maestro João Carlos Martins. Em entrevista exclusiva ao Destak, o maestro paulistano conta fala sobre sua trajetória e os projetos, e como lidou com a dificuldade da visão.

Como foi pra você ser reconhecido com o prêmio Cidadão São Paulo 2019?

Foi uma honra porque eu nasci em São Paulo e amo essa cidade. Ter um reconhecimento como esse foi muito especial principalmente porque foi me dado devido a um projeto sociocultural que eu tenho que se chama “Camerata Brasil”, uma orquestra com jovens músicos que eu profissionalizo por meio de concertos. Em 2019 ele completa 10 anos de existência, e começou tão pequenininho, lá em Vitória (ES)… eu queria fazer concertos públicos com jovens que tinham aprendido a tocar nas ruas e nas igrejas de comunidades. Nós já realizamos mais de 400 concertos e não só em salas do Brasil masno exterior, já tocamos desde a Sala São Paulo e o Theatro Municipal até o Carnegie Hall, em Nova York, Suntory Hall, em Tóquio, entre outros países, como Alemanha, Inglaterra, Holanda… E ao mesmo tempo, também fizemos apresentações em lugares bem escondidos no Brasil, como Canaã dos Carajás (PA), Floresta Amazônica… Então é um projeto muito bonito que profissionalizou uma série de músicos jovens que não tiveram um aprendizado acadêmico e, através do projeto, deram um salto para tornarem-se profissionais.

Como é o relacionamento com os alunos?

Os garotos da orquestra não aprendem somente música, como entrar no palco, como se comportar perante ao maestro, como funciona a carreira de um músico. É como uma família. Quando eles saem da Camerata, podem trabalhar não somente em concertos, mas em outras àreas da música.

Como funciona a Camerata Brasil?

Eu seleciono uma vez por ano um grupo para entrar na orquestra de forma totalmente gratuita, dando chances para novos integrantes. O projeto é sediado em Vitória (ES) e eu tenho uma parceria com a Faculdade de Música do Espírito Santo (FAMES) em que direciono alguns músicos para a graduação. Tenho um formato de 13 músicos e um de 5 músicos que fazem turnês alternadas. Nós fazemos turnês pelo Brasil que são práticas, então elegemos um compositor por ano – o homenageado de 2019 é Villa-Lobos – e fazemos 20 concertos durante dois meses, é intenso e o preparo acontece com muita antecedência com muitos ensaios para servir de uma experiência prática paralela ao estudo teórico que eles têm na universidade.

O objetivo desse projeto foi recuperar o “tempo perdido”, uma vez que eles não são considerados jovens quando começam. Na Rússia, por exemplo, os músicos clássicos começam com três anos de idade, é uma loucura. A Camerata serve para pegar músicos de talento que não tiveram condições de ter um conhecimento acadêmico e colocá-los no mercado musical.

Como funcionam os ensaios?

Depende do projeto. Supondo que eu tenha um projeto que inicia em agosto, eles recebem a música em janeiro, em fevereiro os ensaios começam e como eu viajo muito e moro fora, em Londres, quando estou no Brasil costumo passar muitos dias com eles com ensaios de 4 a 6 horas diárias. Eu já formei cerca de 30 alunos no projeto.

E o projeto Villa-Lobos, como funciona?

Eu me dedico a Villa-Lobos desde criança, já toquei em quase todos os meus concertos. Chegou no ponto da minha cirurgia ocular, que eu passei a enxergar 100% do meu olho esquerdo e 10% do direito, eu resolvi fazer esses projetos socioculturais com o objetivo de divulgar a música brasileira. Villa-Lobos é um compositor tão importante quanto Stravinski, Ravel, Debussy, mas não é divulgado tanto quanto esses outros compositores. Então comecei um projeto que visava fazer concertos dentro e fora do Brasil. Já levei ele para 14 países e criei um projeto multimídia sobre o artista, cujo o objetivo era levar um piano de cauda inteira e uma tela para as prisões para exibir um filme de arte contemporânea que minha esposa [Mariannita Luzzati, artista plástica] criou sobre a natureza, uma vez que Villa-Lobos se inspirava muito na natureza. Fizemos uma turnê de 10 concertos em penitenciárias.

Qual a importância do Brasil ter esses projetos com música clássica?

O Brasil tem algo muito legal que outros países não têm, que é a possibilidade de você transitar em áreas antagônicas da sociedade, já que existe uma miscigenação que acontece muito fácil. Eu lembro quando fui estudar em Nova York em 1981, era um país pós-racismo, você pegava um ônibus e tinham bancos para negros e para brancos, era algo horrível. Aqui no Brasil as camadas da sociedade se misturam com facilidade, então acho que esses projetos de inclusão são muito importantes e efetivos. É possível ver isso nos meus alunos da Camerata Brasil, eles não tiveram a mesma formação cultural que eu, mas quando viajamos, é como uma família, e isso transparece no palco, é uma colaboração muito democrática e de muito respeito.

No ano passado, fiz um concerto somente para pessoas cegas, inclusive pedi para alguns subirem no palco e encostassem no piano para sentirem a vibração da música.

Pode contar um pouco mais sobre sua infância e carreira dependendo dessa deficiência visual?

Eu nasci com um problema muito grave nos olhos, com apenas 3% de visão em um olho e 7% no outro e por conta disso, era viciado em rádio, como eu não enxergava bem, ouvia o dia todo. Com 14 anos, fui visitar meu pai e ele havia comprado um piano e estava tocando um prelúdio de Chopin. Achei tão maravilhoso que pedi ajuda para sentir as vibrações da música para depois aprender a tocá-la. Ele chamou uma professora que começou a me dar aula e depois de uns 20 dias, o pianista João Carlos Martins apareceu na casa do meu pai tocando Bach, mas eu não fazia ideia do porquê. Nunca tinha tocado piano na vida, eu não tinha esse vínculo com a música.

Nesse dia, eu falei pra mim mesmo que seria pianista o resto da minha vida. Dez meses depois o maestro Eleazar de Carvalho me convidou para estrear com ele na OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Foi um risco muito grande, foi minha primeira aparição em público. Eu toquei esse concerto e acabei ganhando um prêmio Revelação da Associação de Críticos de São Paulo. Eu, que cresci na escola como “ceguinho”, “fogo cruzado” e “japonês” acabei ficando falado nas salas de aula por conta desse concerto, e eu tinha apenas 15 anos. Quando fiz a cirurgia, aos 44 anos, nos Estados Unidos, o doutor me disse que eu era praticamente cego e lá eu encontraria várias facilidades e serviços para me ajudar.

Fonte: Destak Jornal

 

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