Preserve seu cérebro com música clássica

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Além de ser uma excelente fonte de prazer, o som contribui para a sua saúde mental

“A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.” Essa belíssima citação, atribuída ao mais famoso compositor de música clássica da história, Ludwig van Beethoven, elucida bem o que essa arte representa na vida de todos os que a levam como estilo de vida.

Mas os benefícios não são observados somente no campo terapêutico. Um estudo divulgado por cientistas da Universidade de Helsinque, na Finlândia, revelou que ouvir obras eruditas com frequência também aciona os genes associados a funções do cérebro, ajudando a prevenir as doenças neurodegenerativas – termo usado em referência às patologias que afetam decisivamente a estrutura do cérebro humano, como o Parkinson, o mal de Alzheimer e a doença de Huntington.

Essa descoberta é importante, porque, até o momento, pelo que há de concreto difundido na comunidade médica, os neurônios – as células do sistema nervoso (que reúne o encéfalo e a medula espinhal) – não se reproduzem nem são substituídos. Dessa forma, quando acontecem lesões ou a morte delas, pelas ocorrências de doenças neurodegenerativas ou acidentes, o organismo não é capaz de repô-las.

As conclusões do projeto destacam que escutar música clássica com frequência aumenta a atividade cerebral envolvida com os sentimentos de prazer e de recompensa – tecnicamente falando, eleva a secreção do neurotransmissor dopamina – e contribui decisivamente no processo de aprendizagem e na preservação da memória. Além disso, os resultados obtidos indicam que apreciar o som contribui para tornar menos ativos os genes envolvidos na degeneração do cérebro e do sistema imunológico.

Com tantos aspectos positivos, temos certeza de que você está empolgado em aderir a esse hábito. Mas a própria pesquisa é clara em divulgar que todos os efeitos positivos encontrados foram identificados apenas em fãs ardorosos de música ou em músicos profissionais.

Por isso, para motivá-lo, vamos contar o caso de dois personagens que comprovam a veracidade da conclusão do estudo.

Renovando a carteira de motorista aos 96 anos

A dona Vera Camargo é um ícone da música clássica no Espírito Santo. Com seu marido, Alceu Camargo, e um grupo de professores de instrumentos, ela foi responsável pela fundação da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (Oses) e atuou também na criação da então Escola de Música do Espírito Santo (Emes), na década de 1950, posteriormente transformada na Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames), na década de 1970, ao oferecer o curso superior de Música, uma iniciativa na qual esteve diretamente engajada.

A violinista e professora de instrumentos de cordas nasceu em 1922, em Cachoeiro de Itapemirim. Graduou-se em violino pela Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estado onde também teve a oportunidade de integrar a orquestra da Rádio Tupy e a Orquestra Sinfônica Brasileira. No início da década de 1950, mudou-se para Belo Horizonte, para exercer a função de primeiro violino na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Em 1954, decidiu voltar para o Espírito Santo, desta vez para a capital, onde exerce seu ativismo musical até hoje.

Hoje, dona Vera está com 96 anos de idade, mas muito longe de sair da ativa. Inclusive, no último mês de outubro, a veterana revalidou sua carteira de motorista e vai de um lado para o outro dirigindo seu modelo crossover 2.0. “Eu não gosto de carro de baixa potência. Prefiro os que têm uma performance um pouco melhor”, brincou.

Perfeitamente lúcida, apenas com um problema de artrose com o qual precisa lidar, a quase centenária capixaba revela que muita gente lhe pergunta qual a “fórmula secreta” para ter chegado tão bem a essa idade. A resposta é enfática: a dedicação ao estudo da música, esforço que conduziu toda a sua trajetória. “Mesmo sendo professora, eu também tocava violino na Orquestra Sinfônica e em outras apresentações. Jamais poderia cobrar dedicação dos meus alunos se eu mesma não fizesse o certo.

E não digo só estudar a partitura de uma peça musical, mas também estudar mesmo o instrumento.

O violino não tem as notas dadas, é o seu relacionamento com o instrumento que produzirá o som adequado. Cada corpo é de um jeito diferente e, ao longo dos anos, o seu corpo também vai mudando. Isso faz com que seu relacionamento com o instrumento também mude. Aprendi que não é possível parar de estudar se quisermos ter êxito no que nós fazemos”, explicou.

O piano também fazia parte de sua vida, como atividade de lazer, assim como os vários concertos promovidos tanto fora quanto dentro do Estado. “A música orquestrada precisa de vivência. Ela é muito complexa e cheia de nuances. Exercitar essas percepções é importantíssimo. Uma mesma peça pode ter dezenas de movimentos que, dependendo da orquestra, pode levar você para um ou outro caminho. É muito encantador. Afirmo, com certeza, que nós podemos ouvir um mesmo programa musical por anos, porém nunca o sentiremos da mesma forma, tamanha é a oportunidade de estímulos que ele gera”, analisou.

O neurologista Paulo Roberto Alves Rosa afirma que manter o cérebro estimulado realmente é um dos fatos documentados pela medicina para preservação da saúde mental. Nesse contexto, acrescenta, a música, por todo o seu valor acumulado, pode ser um agente ainda mais potente. Conhecedor desses efeitos positivos, o próprio médico é um músico praticante, tendo o trompete como instrumento favorito.

“Há vários hábitos que levam um músico de orquestra para o caminho da longevidade, não sendo acometido por doenças neurodegenerativas. São fatores como a rotina de estudos, o estímulo constante do cérebro para melhorar a performance pessoal e facilitar o desempenho em conjunto, os desafios que os concertos trazem para o processo profissional”, enumera.

Porém, o especialista pondera que apenas a carreira musical não é suficiente; outros hábitos saudáveis devem acompanhá-la. “Como médico e músico, digo que a vivência musical traz uma energia diferente. Labutar em cima de uma peça, de um arranjo mais complexo, e ver traduzido esse esforço em som, em arte, traz uma sensação indescritível.

Mas muitos músicos pegam essa ‘energia’ e não a levam para sua vida cotidiana.

Fazem uso de substâncias nocivas ao corpo ou se entregam ao sedentarismo, diminuindo todo o fator positivo da música”, alerta.

Esse também é o alerta do geriatra Edson Vinicius Pereira Rezende, que reforça a importância de se cuidar do corpo como um todo. “Conheço estudos que falam que as ondas sonoras dos movimentos da música clássica ajudam na organização mental, e isso traz benefícios para qualquer ser humano, em qualquer idade. Porém, para questões de preservação da vida com qualidade, outros aspectos precisam ser trabalhados, como uma alimentação adequada, uma rotina de sono equilibrada, uma vida sem muitos excessos, uma movimentação corporal ou prática de exercícios físicos que estimulem os músculos de forma correta, a maneira de encarrar as vicissitudes e a carga genética que trazemos”, menciona.

No deserto tinha um piano

 Ser fã da música clássica, mesmo não sendo um instrumentista profissional, também corrobora para a obtenção de bons resultados. Nessa experiência, o engenheiro geofísico aposentado Michel Meier, de 75 anos, é o exemplo prático que atesta a fidelidade pesquisa. Nascido na França e naturalizado brasileiro, ele percorreu várias partes do mundo para participar de equipes que instalavam estações extrativistas de petróleo. Michel relata que, antes de conhecer o amor da sua vida, a professora de Línguas Elizete, brasileira com quem está há 42 anos casado, morou por muitos anos na região desértica do Oriente Médio, tendo que conviver com profissionais de 17 culturas diferentes.

“Fui educado a apreciar a música clássica na minha infância e juventude e, quando estava no meio do nada, vi que minha saúde dependia de trazer um pouco de arte para aquele local. Então, colocava um piano na carroceria da minha caminhonete e o levava para onde precisava ir”, relata, explicando que também começou a tocar o instrumento quando era criança.

Na época, seus colegas de trabalho consideravam isso uma excentricidade, mas hoje ele percebe que só conseguiu passar por aquela fase praticando a música. Nos dias atuais, não perde um concerto da Orquestra Sinfônica ou da Camerata Sesi-ES.

“Não tem chuva ou indisposição que me faça perder uma noite de concerto. Eu sei que, de qualquer forma que eu chegar à apresentação, sairei de lá melhor, com as minhas emoções no lugar. Vivo e respiro música. É um estilo de vida para mim”, descreve.

A psicóloga Lucia Regina de Castro Barros não tem dúvidas de que a música teve contribuições decisivas para que os experientes personagens desta reportagem chegassem à idade atual com saúde e qualidade de vida. “Quando estimulamos a nossa mente de forma positiva, os efeitos benéficos são indiscutíveis.

Manter o cérebro ativo, estudando, principalmente na área artística, faz toda a diferença na conservação dos neurônios. Há uma vasta documentação sobre isso. Mas, terapeuticamente falando, a arte transforma vidas e traz uma beleza e uma leveza que são difíceis de ser vistas em outras atividades de rotina.

O desafio apresentado para nossa sociedade é como envelhecer da melhor forma. Os medicamentos estão evoluindo, mas é nossa responsabilidade buscar o melhor modo para que isso aconteça, seja fazendo um novo curso superior, seja aprendendo uma nova profissão, seja aderindo outra qualquer outra forma para manter-se feliz e realizado”, conclui.

Fonte: Portal ES Brasil – Revista SAMP

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